O Engenheiro de Segurança do Trabalho desempenha uma função vital na engenharia moderna: a de antecipar riscos para preservar o bem mais valioso de qualquer projeto, a vida humana. Em obras de alta complexidade, como viadutos e túneis, essa missão exige não apenas rigor técnico, mas uma capacidade constante de inovação e olhar estratégico. 

Foto do Elbert Machado

Para celebrar o Dia do Engenheiro de Segurança do Trabalho, a Sondotécnica conversou com o engenheiro Elbert Lage. Durante o bate-papo, ele compartilhou sua trajetória, que começou no “chão de fábrica” em indústrias de alto risco, e detalhou como ferramentas avançadas, como o BIM e a Inteligência Artificial, estão revolucionando a análise preditiva de acidentes. Confira a entrevista na íntegra:

1. O que despertou seu interesse pela Engenharia de Segurança do Trabalho? Foi uma escolha inicial ou algo que veio depois?

Minha história com Segurança do Trabalho começou no chão de fábrica, trabalhando como Técnico de Segurança em multinacionais classificadas com grau de risco 4 – ambientes onde não há espaço para erros. Os desafios eram constantes, e a responsabilidade de zelar pela integridade das pessoas era imensa.

Estar ali, vivenciando tudo de perto, me fez compreender na prática o quanto a prevenção realmente importa. Eu via o impacto direto do nosso trabalho na vida de cada profissional. Fui me apaixonando cada vez mais pela área e percebi que queria ir além, atuar de forma mais estratégica. Foi então que decidi fazer engenharia e posteriormente me especializar em Segurança do Trabalho. Não foi uma decisão repentina – foi se construindo através da experiência, do propósito e da paixão pelo que faço.

2. A Sondotécnica trabalha com projetos bem complexos – geotecnia, túneis, grandes obras. Qual é o papel do Engenheiro de Segurança do Trabalho num cenário desses, cheio de riscos específicos?

Depois de ter começado em indústrias de alto risco, aprendi uma coisa fundamental: nosso trabalho é antecipar problemas antes que eles se concretizem. Em projetos como túneis, obras lineares e movimentação pesada de solo, os desafios se multiplicam. Nosso papel se torna ainda mais essencial.

Acabamos sendo aquela ponte entre a engenharia, a operação e as equipes que estão executando o trabalho no campo. É garantir que cada etapa seja analisada considerando os perigos e riscos envolvidos. Nosso trabalho é integrar a prevenção ao planejamento desde o início, reduzir as incertezas e tornar o ambiente mais seguro – e, consequentemente, mais eficiente e tecnicamente robusto.

3. A Sondotécnica tem investido bastante em BIM e Inteligência Artificial. Como essas inovações mudaram seu dia a dia?

A transformação foi significativa. Venho de operações mais tradicionais e posso afirmar: BIM e IA representam outro patamar. Elevaram consideravelmente nossa capacidade de prever perigos.

Com o BIM, conseguimos visualizar situações de risco antes mesmo de iniciar a obra – coisas que antigamente só identificávamos quando tudo já estava em andamento. E a Inteligência Artificial nos ajuda a processar dados de campo, histórico de incidentes, quase-acidentes e condições ambientais, identificando padrões que sozinhos jamais enxergaríamos. Isso resulta em decisões muito mais assertivas. São ferramentas que trazem mais agilidade, precisão e segurança ao cotidiano.

4. Análise preditiva é um assunto que está em alta. A IA consegue mesmo analisar dados de quase-acidentes e prever onde um incidente pode acontecer antes de ocorrer?

Sim, e isso já é realidade na engenharia moderna. Sempre valorizei muito os registros de quase-acidentes no campo, mas a análise manual tinha suas limitações – não conseguíamos enxergar todas as correlações presentes nos dados.

A Inteligência Artificial transformou essa dinâmica. Ela identifica padrões, tendências e combinações de fatores que apontam para riscos iminentes. Com isso, é possível agir preventivamente: ajustar procedimentos, reforçar treinamentos, revisar cronogramas ou modificar metodologias. A análise preditiva transforma informação em ação concreta – e em vidas preservadas antes que qualquer incidente aconteça.

5. Segurança não é trabalho de uma pessoa só. Como funciona sua integração com outras áreas – geotecnia, saneamento, infraestrutura – para garantir que a segurança esteja presente desde o começo do projeto?

A integração com outras disciplinas é fundamental, especialmente ao ter experiência em ambientes de risco elevado. Trabalhar com equipes de geotecnia, saneamento e infraestrutura exige diálogo constante, compartilhamento genuíno de informações e compreensão conjunta dos riscos.

Participo desde as fases iniciais dos projetos, contribuindo com análises de risco, revisões técnicas e alinhamento de metodologias. Quando a segurança é incorporada na concepção do projeto, ela deixa de ser uma etapa final e se torna um princípio norteador de toda a engenharia. É essa construção colaborativa que garante uma cultura de prevenção sólida e sustentável.

6. Além de conhecer bem as NRs, que conselho você daria para um jovem engenheiro que está pensando em se especializar em Segurança do Trabalho? O que você gostaria que tivessem te contado quando estava começando?

Eu diria que, além de dominar as normas, é essencial vivenciar o campo, compreender os processos e, principalmente, conversar com quem executa as atividades. Quando comecei como Técnico de Segurança em empresas de alto risco, aprendi que a segurança depende tanto da competência técnica quanto da empatia, da escuta ativa e da capacidade de influenciar positivamente.

Gostaria que alguém tivesse me dito que a Engenharia de Segurança exige habilidades humanas tão importantes quanto as técnicas. Meu conselho é: mantenha-se próximo das operações, observe, questione, aprenda com quem realiza o trabalho. Segurança é fundamentalmente sobre pessoas. Quando você internaliza isso, transforma completamente sua forma de atuar em qualquer área.


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