
No dia 23 de junho, celebramos o Dia Internacional das Mulheres na Engenharia, uma data que reconhece a contribuição das profissionais que impulsionam a inovação, ampliam fronteiras e ajudam a construir o futuro do setor.
Para marcar a data, a Sondotécnica conversou com Regina Ruschel, Coordenadora do TechLab Academy, professora, pesquisadora e uma das principais referências brasileiras em BIM. Pioneira na introdução do CAD no ensino da engenharia civil e protagonista na disseminação do BIM no país, Regina acompanhou de perto algumas das principais transformações tecnológicas da engenharia nas últimas décadas.
Na entrevista, ela compartilha sua visão sobre a evolução do setor, os desafios da formação profissional e a importância da representatividade feminina na construção de uma engenharia mais diversa e inovadora. Confira a entrevista na íntegra:
Como começou sua trajetória na engenharia e o que despertou seu interesse pela área?
Eu escolhi a engenharia civil inspirada por um tio muito querido — irmão do meu pai — um engenheiro calculista brilhante, um homem forte, seguro de si e genuinamente feliz. Também pesou o fato de eu adorar desenhar e ter uma queda natural pela matemática.
Mas o começo não foi simples. Me formei em 1981, bem no meio de uma recessão pesada no Brasil. O mercado estava parado, e se já faltavam vagas para engenheiros experientes, imagine para quem acabava de se formar — e ainda por cima uma jovem mulher entrando num ambiente majoritariamente masculino.
Foi então que decidi dar um passo ousado: fazer mestrado no exterior, na área de Mecânica dos Solos. Essa escolha mudou tudo. Lá tive meu primeiro contato com computação, algo ainda muito novo na época, e essa experiência acabou abrindo as portas para o meu primeiro emprego quando voltei ao Brasil.
Uma virada que começou por necessidade, mas que acabou definindo toda a minha trajetória.
Ao longo da sua carreira, você se tornou uma das referências em BIM no Brasil. Em que momento percebeu o potencial dessa metodologia para transformar o setor?
Sempre estive envolvida, quase de maneira orgânica, com a transformação digital. Meu projeto de pesquisa para ingresso como professora e pesquisadora na UNICAMP, lá em 1986, já apontava esse caminho: criar uma interface gráfica para programas de cálculo de treliças.
Essa aventura me levou direto ao CAD — resolvi o problema desenhando a treliça e extraindo automaticamente sua descrição. A partir desse contato intenso com CAD e programação, introduzimos o CAD como disciplina obrigatória no curso de engenharia civil.
Fomos pioneiros na UNICAMP em 1989, e eu nunca me limitei ao 2D: ensinava os alunos a modelar em 3D e, a partir daí, extrair todas as representações necessárias.
Meu encontro com o BIM veio em 2001, quando tive acesso à primeira versão do Revit logo após sua aquisição pela Autodesk. Mas minha entrada no BIM foi curiosa: fiz o caminho inverso do habitual — primeiro mergulhei na colaboração, depois na instrumentação.
Acho que me tornei referência em BIM justamente por esse pioneirismo no ensino e pela escolha constante de trilhar caminhos ainda pouco explorados. Me atraíram temas novos: realidade aumentada, bibliotecas de componentes para elementos temporários de obra, gêmeos digitais, processamento de linguagem natural.
No fundo, sempre busquei aquilo que ainda não tinha sido tocado — e talvez tenha sido isso que guiou toda a minha trajetória.
Ser pioneira em inovação exige visão e coragem. Como foi introduzir conceitos ligados ao BIM em um período em que o mercado ainda estava amadurecendo esse tema?
Houve um período em que eu realmente acreditei que nunca veria o BIM acontecer de verdade na prática, sendo adotado de forma ampla. Eu me sentia muito sozinha nessa jornada. O aluno a quem eu ensinava BIM na graduação, no estágio acabava “desaprendendo”, porque a indústria ainda funcionava em outra lógica. As barreiras eram tantas que, por vezes, eu me sentia uma sonhadora fora do lugar, alguém falando de futuro quando o presente parecia insistir em ser o certo.
Mas o tempo, a persistência e — principalmente — o esforço coletivo de múltiplos agentes dedicados à difusão fizeram o cenário virar. Hoje o BIM é uma realidade sem volta. Ainda há desafios, claro, mas são infinitamente menores do que aqueles do começo. E ver essa transformação acontecer diante dos meus olhos é, para mim, uma das maiores recompensas dessa trajetória.
Mas como eu não paro nunca, e tenho encontrado oportunidades maravilhosas de me envolver nas transformações que a inteligência artificial está trazendo, me vejo novamente naquele lugar de sonhadora — só que agora de um jeito diferente.
É uma sensação estranha, como estar diante de algo enorme que eu consigo vislumbrar, mas não alcançar por completo. Já enxergo, mesmo que de forma borrada, um futuro de singularidade e mudanças profundas na nossa indústria e, principalmente, no ensino. E, mais uma vez, estou ali: inquieta, curiosa, meio sem chão… participando desta transformação.
Na sua visão, quais foram as principais mudanças que a engenharia brasileira viveu desde o início da sua carreira até hoje?
Olha, pensando desde os anos 80, que foi a década do meu ingresso na graduação, posso dizer que acompanhei vários ciclos de mudanças. Quando comecei, tudo era manual: cálculo na prancheta, desenho no papel vegetal, obra muito mais artesanal.
A chegada do computador e do CAD foi um choque — de repente, aquilo que levava dias passou a levar horas. Depois vieram os novos materiais, as normas de desempenho, a sustentabilidade entrando pela porta da frente… a engenharia foi ficando mais madura, mais técnica, mais exigente. O canteiro mais seco, mais inteligente.
Veio o BIM, que virou a mesa de vez: colaboração, modelos informados, simulações, coordenação multidisciplinar. Foi uma revolução silenciosa, mas profunda. E agora estamos vivendo outra virada, talvez ainda maior: a inteligência artificial.
O TechLab Academy tem um papel importante na disseminação de conhecimento e inovação. Como você enxerga essa iniciativa dentro do contexto da transformação digital da engenharia?
Eu vejo o TechLab como o futuro da engenharia — ele faz essa ponte linda entre o processo digital, que é mais abstrato, e o mundo concreto da obra e da operação do ativo. É exatamente por aí que a engenharia precisa caminhar.
Já o Academy, que olha para a disseminação do conhecimento e para a inovação, é hoje o meu maior desafio. Venho de um ciclo muito intenso, no qual desenvolvi um protocolo de transformação curricular para incluir BIM e digitalização na formação técnica, de engenharia e de arquitetura. Esse protocolo amadureceu, facilitei a aplicação em inúmeras universidades, e o protocolo se tornou política pública. Foi um fechamento de ciclo muito especial.
Agora, entro em outro tipo de desafio: pensar como se ensina dentro do universo corporativo, que precisa se reinventar o tempo todo sem parar o que está fazendo. É um ambiente que exige atualização constante, mas que não pode “pausar” para aprender. Então surgem as grandes perguntas: como engajar, como ensinar, e — talvez a mais importante — o que ensinar. É um terreno novo, cheio de possibilidades, e estou mergulhando nele com a mesma curiosidade que sempre me guiou — e, juro, já vejo trilhas.
Qual é a importância da formação contínua para os profissionais que desejam atuar em um mercado cada vez mais tecnológico?
A formação contínua, hoje, não é mais opcional — é um must mesmo. O conhecimento evolui numa velocidade absurda, e a gente precisa evoluir junto. Claro que a prática do dia a dia gera muito aprendizado, mas ela também pode nos deixar acomodados, repetindo sempre as mesmas soluções. Por isso é tão importante se colocar, de vez em quando, fora da zona de conforto.
Aprender a fazer de um jeito novo, experimentar, testar, errar, ajustar… tudo isso mantém a cabeça viva e a profissão pulsando. Inovar dá trabalho, mas ficar parado custa muito mais.
Como você avalia a presença feminina na engenharia atualmente? Quais avanços mais te inspiram?
Quando eu olho para a minha trajetória, percebo que praticamente não tive referências femininas no começo. Minha primeira referência mulher só apareceu no doutorado: a professora Claudia Bauzer, da Ciência da Computação da Unicamp, especialista em Banco de Dados. Depois veio a Doris Kowaltowski, minha colega de sala na Unicamp, com quem mergulhei no CAD e no universo da pesquisa.
Antes delas, eram todos homens — meus professores da graduação, do mestrado, e até quem me inspirou a ser engenheira. Era o cenário da época.
E é por isso que me emociona tanto ver a realidade das jovens arquitetas e engenheiras de hoje. Elas têm referências femininas, muitas, e isso muda tudo.
Dá para ver a sensação de pertencimento que elas carregam: elas simplesmente são, ocupam seu espaço sem pedir licença. Claro, ainda precisamos ser muito melhores para chegar aos mesmos lugares, e ainda não estamos em igual número nas posições de liderança. Mas isso é questão de tempo, e pouco tempo eu diria.
Que conselhos daria para jovens mulheres que desejam construir carreira na engenharia e em áreas ligadas à tecnologia e inovação?
Será que eu preciso dar conselhos para essas jovens mulheres, colegas que tanto admiro?
Mas vamos lá… Eu diria para essas jovens mulheres que abracem a curiosidade delas sem medo. A engenharia muda o tempo todo, e quem se permite explorar o novo sempre chega mais longe.
Não esperem ter todas as respostas — eu mesma nunca tive. O importante é se colocar, ocupar espaço e seguir explorando. A inovação precisa de mentes inquietas, e elas já nasceram inquietas.