Mais de um bilhão de pessoas vivem hoje em assentamentos informais em todo o mundo. No Brasil, esses territórios são conhecidos como favelas, áreas marcadas por relevo desafiador, alta densidade construtiva, crescimento acelerado e dinâmicas urbanas próprias. No Rio de Janeiro, mais de 1,5 milhão de pessoas vivem nesses espaços, que fazem parte essencial da cidade e de seu funcionamento.
Apesar de sua relevância, as favelas ainda são pouco compreendidas do ponto de vista técnico. Os métodos tradicionais de mapeamento urbano, muitas vezes baseados em plantas bidimensionais e cadastros convencionais, não conseguem representar sua complexidade espacial, sua verticalização e suas transformações constantes.
É nesse contexto que surge o Data Clouds, um projeto que propõe uma nova forma de enxergar e analisar as favelas do Rio de Janeiro a partir de dados espaciais de alta precisão.
Tecnologia aplicada à leitura do território
Apresentado em um artigo publicado na revista científica Urban Sustainability, o Data Clouds utiliza escaneamento LiDAR combinado com técnicas de análise de dados para mapear as favelas com alto nível de detalhe. Essa abordagem permite ir além da representação de ruas e edificações, revelando a forma como os espaços se conectam, se sobrepõem e evoluem ao longo do tempo.
Ao transformar dados espaciais em informações mais completas sobre o território, o projeto contribui para uma compreensão mais precisa de aspectos como ocupação do solo, circulação, ventilação, incidência solar e relação entre construções e relevo, fatores diretamente ligados à segurança, à qualidade urbana e à sustentabilidade.
O Vidigal como laboratório urbano
O Vidigal foi escolhido como área de estudo do Data Clouds por reunir muitas das características presentes em assentamentos informais: ocupação em encosta, crescimento orgânico e alta densidade construtiva. A partir de dados LiDAR de alta resolução, foi possível registrar com precisão sua configuração tridimensional e suas dinâmicas espaciais.
Esse tipo de mapeamento amplia as possibilidades de análise técnica e oferece uma base mais sólida para estudos urbanos, planejamento e avaliação de riscos, contribuindo para decisões mais qualificadas em contextos urbanos complexos.
Colaboração entre tecnologia, engenharia e território
O Data Clouds é resultado de uma colaboração entre o Senseable City Lab, do MIT, a Prefeitura do Rio de Janeiro, moradores locais, a Sondotécnica Engenharia e a Journey. A participação da Sondotécnica reforça o papel da engenharia como ponte entre tecnologia, análise técnica e aplicação prática no território.
A cocriação com os moradores foi um aspecto central do projeto. Ao transformar dados complexos em representações visuais acessíveis, o Data Clouds contribui para que as próprias comunidades compreendam melhor seus territórios e participem de discussões sobre seu futuro de forma mais informada.
Da Bienal de Veneza ao debate urbano contemporâneo
O projeto foi apresentado pela primeira vez na Bienal de Arquitetura de Veneza, um dos principais fóruns internacionais de debate sobre cidade, território e futuro urbano. A exposição do Data Clouds colocou as favelas do Rio de Janeiro no centro da discussão global sobre urbanização informal, tecnologia e sustentabilidade.
O projeto demonstra como dados e engenharia podem apoiar políticas públicas, planejamento urbano e estratégias de mitigação de riscos em territórios complexos.
Engenharia, dados e cidades mais inclusivas
Ao revelar camadas invisíveis da cidade, o Data Clouds amplia o repertório técnico disponível para lidar com um dos maiores desafios urbanos contemporâneos. Para a Sondotécnica, iniciativas como essa reforçam a importância da engenharia baseada em dados, da inovação tecnológica e da atuação integrada entre diferentes áreas do conhecimento.
Entender o território em profundidade é o primeiro passo para projetar soluções mais seguras, eficientes e sustentáveis, especialmente em ambientes onde a complexidade exige novas formas de olhar, analisar e intervir.
Fontes: